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XI

Eu estou calada aqui no canto. Não quero mais falar sobre isso. Estou cansada e já vivi tudo. Hoje, observo as pragas que assolam um tempo que não é o meu. Carrego em mim as cicatrizes de um mundo destruído pelos braços do mar e pelo rubro dos vulcões. Sou o flaneur que vaga através das décadas, com os olhos cerrados pela neve e pelo sol – as mãos enfiadas nos bolsos. Mas, nesta manhã, estou estática: lânguida e sem sorrisos. Não há nada passando por minha pesada cabeça no momento. Sou o metapensar. As imagens se repetem, gêmeas opostas, como num jogo de espelhos. Eu devo me levantar e continuar o caminho, pois depois da paz há de surgir a tempestade. E meu momento de paz acabou. Agora.

Minhas lágrimas não emocionam.
Não despertam surtos de carinho desmedido.
A verdade é que tampouco me comovem.

São gotas pra ninguém. Pro nada.
E meu sofrimento é o lençol,
Que bebe do meu lamento e acolhe meus amantes.

Meu coração é, sim, errante.
Enlaça-se na paixão mais próxima.
Conforta-se no peito que lhe é oferecido.

O cerne desta carne é, pois, mareados olhos.
Cacos através dos quais eu, a Virgem Ilusória,
Exponho as marcas da alma em desespero eterno.

Mas você não vê. Você me lê, mas não vê.
Franze a testa. Finge partilhar de meu tormento.
Lastima meus pulsos cortados…

Mentiras.

A verdade é que sou o pesadelo de Atenas.
Nada tenho e nada desperto
Senão a volúpia e o desejo.

Não há sabedoria em minhas súplicas
Não há amor em sua pretensa compaixão
Você pensa que não sei o que sou ou o que quer?

Ah, Afrodite, que me dá como oferenda,
Que me mata e me drena sem piedade,
Por que jamais é completo meu sacrifício?

As ignorâncias

Estava sentada no chão, encostada na cama. Suas pernas estendidas sobre o tapete. Seus pés doíam e ela pensava que não conseguiria se levantar. Virou-se para ele, que dormia tranqüilo no seu lado da cama. Invejava sua placidez. Estava irada porque sua dor falava javanês e ele jamais entenderia. Queria desistir.

Será que se ele acordasse e não houvesse mais duas almas no quarto, ele optaria pela loucura? Ninguém o culparia… Ela estaria lhe fazendo um bem de qualquer forma, não estaria?

Ela não tinha idéia do que a incomodava tanto. Sua cabeça? Seus pés? Seu corpo físico não cabia mais a alma cravejada de vozes, de símbolos malquistos, de incompreensões. Ela não sabia por onde começar. Tanta dor, tantas questões. Nada fazia muito sentido, ninguém a ajudava e nunca havia resposta. Não. Nunca. Era melhor que fosse surda e muda, porque já existiam muitas vozes ali dentro.

Ele jamais saberia. Ela jamais compreenderia.

Ergueu-se com dificuldade.

Trancou-se no banheiro. Remédios para dormir, giletes, banheira, vidro: tantas possibilidades. Tanto sofrimento. Múltiplas razões.

Ninguém jamais desconfiou. Não desconfiariam jamais.

Os olhos fixaram-se na imagem refletida no espelho e uma compaixão intensa tomou conta de sua alma. E não há nada além disso, não é mesmo? Piedade sublime.

Pensou duas vezes.

Haveria de existir alguma razão. Talvez se conseguisse esperar… um pouco mais… algo, alguém viria lhe explicar. Talvez, a resposta eclodisse das vozes que a adoeciam. Todo tomento seria, então, justificado.

Dirigiu-se para a banheira. Vazia, sim. Cheia de bálsamo, porém.

Lá ficou até o amanhecer.

Ele jamais compreenderia. Ela jamais lhe explicaria.

X

Eu quero te bater. Eu quero te bater tanto… Até tirar sangue pelo seu nariz, quebrar seus dentes, fazer você chorar. Eu sei que você gostaria de algo assim… Seu choro se misturaria ao meu riso… Ao seu riso.

Eu te odeio. Eu te odeio tanto… Até minha cabeça latejar de desejo, de dor, de asco. Te odeio como um obsessor, como um vampiro. Que te necessita, mas gosta de te matar um pouco toda a noite. E eu sei que você pede para morrer toda a noite.

Eu te consumo no escuro.

Free Falling

And we feel like real failures
We haven’t been able to change your mind
We haven’t been able to make you fall
How pathetic is to fall and not be caught?
_____________________________

Numb

How many times are enough?
You fall and break into pieces
You fall and turn into smut
When will I learn not to feel?

IX

Estou cansada de cabeças de vento,

De ignorâncias assassinas,

De poucos instrumentos…

Onde está a cultura imensa?

A base forte?

A luz intensa?

Não quero mais a Falta perto de mim.

Frankenstein de papel

Não temo mais sua mão pesada,

Sua raiva contundente,

Seu medo de ser gente.

Ah, Fera, não odeie sua criadora.

Não deixe que a roda de gárgulas se feche

Sobre você… Sobre sua fé…

Você, como eu, criou seus demônios:

Está em tempo de exoricizá-los.

VIII

Ele me perguntou se eu tinha achado outra pessoa melhor.
Respondi que sim: EU.

VII

A Claridade faz parte dela, de seu nome, de sua alma.

As mãos não param de digitar, de escrever, de desenhar.

Os olhos não vêem o hoje, o amanhã ou o ontem:

Vêem tudo junto, misturado.

Nela tudo está junto, misturado.

Indissociável, Indecifrável, indefinível:

A contradição dentro de Clara.

Profundíssima, Singularíssima, Puríssima,

Ainda assim, Claríssima.

VI

No silêncio da noite, o som dos mil espíritos.

O escuro profundo e cego: o velho grego.

Será que sabiam o que iria acontecer?

O sonho nunca mais terminou,

Não terminará.

Mas elas acordarão dentro de si,

Onde não há limites.

Vivam, bonecas,

Para sempre

No infinito.

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